A rejeição de IA em textos cresceu porque leitores passaram a identificar padrões genéricos, jargões repetitivos e ausência de ponto de vista humano. Textos produzidos predominantemente por IA têm menor taxa de aceitação em revistas acadêmicas e geram irritação crescente nas redes sociais. O problema não é a ferramenta, mas o uso sem senso crítico.
Por Isabella Torres
Nos últimos tempos, um número crescente de editores, leitores, professores e pesquisadores começou a identificar algo diferente: textos que parecem corretos e bem produzidos, mas carregam um peso linguístico, com muitos jargões, sem realmente dizer nada original. Faltava experiência real, posicionamento, fluidez, até sarcasmo, e não tinham imperfeições humanas. Esse fenômeno foi fomentado pelo excesso de uso de IA na produção escrita, e em pouco tempo levou à rejeição de IA em textos.
Será que a qualidade do conteúdo caiu ou, na verdade, um texto bem escrito se desvalorizou?
Se você soubesse que Da Vinci, Monet ou Van Gogh usaram inteligência artificial para criar suas pinturas, elas provavelmente não teriam o mesmo valor, e certamente não estariam nos museus.
A tecnologia transformou até a arte (no seu sentido visual) em algo acessível. Basta um bom prompt. O que antes exigia talento, muita prática e meses, ou anos, de trabalho, hoje pode levar segundos. E isso torna tudo mais frugal, menos valioso. Com a escrita, acontece o mesmo. A percepção das pessoas é que houve preguiça de criar algo de valor.
Muitos escritores consagrados, com obras lidas até hoje, como Fiódor Dostoiévski, produziam seus textos à mão. Os manuscritos mostram rasuras, acréscimos nas margens e reescritas de passagens inteiras.
Tudo isso tornava o processo mais difícil, mas também mais profundo.

Escrever à mão é um excelente exercício para o cérebro, que acompanha nosso ritmo natural e contribui para a memória, a concentração e o desenvolvimento da linguagem. É a forma mais eficaz de aprender. Quando você faz anotações, precisa revisar e reescrever, e o que se produz assim fica muito mais entranhado na mente.
Dedicação total ao papel, dependendo apenas das próprias referências e conhecimentos: era isso que Dostoiévski tinha.
Será esse o segredo para que suas obras continuem vivas mesmo duzentos anos depois? E além de tudo, ainda precisem de um nível aprofundado de interpretação textual, para serem compreendidas completamente?
Hoje, muitos criadores de conteúdo produzem em volume pensando apenas em aparecer o máximo possível, e agradar o algoritmo, mas podem não se lembrar da metade do que já publicaram. Por outro lado, outros leem em excesso sem absorver nada. Assistem a vários filmes e não lembram nem o título, porque o cinema deixou de ser um marco: hoje temos acesso a uma quantidade enorme de filmes.
O padrão da nossa época é o volume, em detrimento da qualidade e do aprofundamento.
Ou seja: várias coisas que antes não existiam ou eram escassas hoje existem em abundância, e precisamos administrá-las de forma consciente para não cair na superficialidade. Assim como o uso da IA em textos.
O que está por trás da irritação com textos de IA
Não é fácil explicar por que um texto parece artificial. Muitas vezes a gramática está certa, a estrutura também. Mas falta aquele toque que só vem de quem viveu algo, leu de verdade, ou formou uma opinião própria.
Os sinais mais comuns de textos artificiais são o excesso de bordões, frases de efeito, emojis, travessões decorativos e um tom genérico que poderia se aplicar a qualquer assunto.
Muitas pessoas já se sentem capazes de identificar um conteúdo gerado por IA antes mesmo de ler. E quem está pagando o pato é quem publicou, sendo julgado por ter feito uma má curadoria do seu texto.
Ou seja, agora, quem escreve, não tem apenas medo de ter escrito algo mal, dado uma opinião ruim, ter exposto um erro gramatical ou de digitação. Mas também sofre com o pavor de ter seu texto confundido com uma publicação de IA.
O impacto da IA na produção de artigos acadêmicos
A revista Organization Science passou a rejeitar manuscritos com alto uso de IA antes mesmo da revisão por pares. Quase 70% dos artigos com uso intensivo de IA são rejeitados nessa etapa, contra 44% dos artigos sem IA. Apenas 3,2% dos textos com alto nível de IA chegam à aceitação final, comparado a 12% dos que têm baixo uso da ferramenta.
Segundo Cal Newport, que citou esse acontecimento em seu blog, as ferramentas de IA generativa estão inflando o volume de submissões com qualidade baixa, o que sobrecarrega todo o sistema de revisão. A facilidade individual gera um custo coletivo.
No Brasil, o CNPq tomou uma posição: desde 6 de março de 2026, a portaria nº 2.664/2026 obriga pesquisadores a declarar o uso de IA em qualquer fase do trabalho, especificando qual ferramenta, em qual etapa e com qual finalidade.
Por exemplo, ela pode ser utilizada para organizar referências, mas não deve dar parecer científico. O autor ainda é totalmente responsabilizado pelo conteúdo que produz.
Se você é escritor, redator ou pesquisador, também deveria fazer isso, para registrar de que forma a IA está te ajudando, e se ela está sendo protagonista da suas ideias ou seu suporte.
Rejeição de IA em redes sociais: usuários também percebem
O fenômeno não é exclusivo da academia. Nas redes sociais, comentários, legendas e posts claramente gerados por IA já acumulam críticas abertas. Pessoas relatam irritação com o tom pasteurizado, com a ausência de personalidade e com a sensação de estar lendo uma resposta de chatbot.


Como usar IA na escrita sem cair na superficialidade
O problema não é usar IA. O problema é deixar que ela ocupe o papel principal. As ideias, os exemplos, a experiência de vida, esses elementos são seus. A IA pode ajudar a revisar, reorganizar ou ajustar o tom. Mas a palavra final deve ter senso crítico.
O cérebro humano sempre vai buscar o esforço mínimo em cada tarefa. Por isso é tão difícil ir à academia e tão fácil sentar no sofá para ver Netflix. Difícil sentar e produzir um texto, mas fácil pedir para a IA criar.
Cair nessa armadilha da facilidade pode acabar fazendo você usar a ferramenta de modo genérico. É aí que ela perde o seu potencial, junto com quem escreve.
Nada com qualidade real fica pronto em menos de cinco minutos.
Como leitora, percebo que muitas pessoas que deixam a IA ser protagonista da escrita acabam sendo menos objetivas, criando textos morosos e, consequentemente, menos interessantes.
Alguns escritores chegaram ao ponto de inserir pequenos erros intencionais nos textos para que não pareçam produzidos por máquina. Mas tem um jeito de não parecer um robô sem ter que agir assim.
Cinco perguntas para avaliar se seu texto é autêntico ou poderia ter sido feito por IA
Antes de publicar qualquer texto, vale passar por essas cinco perguntas:
- A IA poderia ter escrito exatamente isso se eu perguntasse sobre o assunto? Se sim, o texto está genérico.
- O texto tem meu ponto de vista, minhas experiências e referências? Se sim, ele não está genérico.
- Escolhi referências legítimas para embasar meu texto? Uma boa curadoria de fontes levanta qualquer artigo. Não crie no achismo.
- O que posso tirar para deixá-lo mais objetivo sem perder a ideia central? Muitas vezes, o que tiramos é mais importante do que o que colocamos.
- Meu leitor ideal consegue captar todas as ideias com clareza? Antes de publicar, dê para outra pessoa ler, se necessário.
Deixe o texto descansar. Revise no outro dia, com a mente mais fresca. Se ainda precisar de muitas alterações, aguarde mais um pouco, mas não transfira a decisão final para a IA.
O futuro da leitura depende de quem escreve hoje
Se continuarmos produzindo conteúdos irritantes, cheios de jargões manjados e sem nada novo, as pessoas vão perder o interesse em textos originais. A autenticidade na escrita deixou de ser um diferencial estético, passou a ser um critério de sobrevivência editorial.
Você precisa ter um conhecimento superior ao da IA para conseguir usá-la bem. Do contrário, ela não vai acrescentar nada ao seu processo, só vai acelerar a mediocridade.
Nunca pare de ler textos humanos em livros, em blogs com curadoria, em autores que você admira. São essas referências que impedem sua mente de ser colonizada por expressões manjadas e pela fluidez vazia que caracteriza a escrita genérica de IA.
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