Pollyanna, de Eleanor H. Porter, é um clássico da literatura infantojuvenil publicado em 1913. A história acompanha uma menina órfã que transforma a cidade onde passa a viver por meio do “jogo do contente”: o hábito de encontrar algo positivo mesmo nas situações difíceis. Uma leitura sobre empatia, perspectiva e convivência que continua atual.
Escrito por Isabella Torres
Quando decidi ler Pollyanna, de Eleanor H. Porter, minha curiosidade foi além da história. Sempre gosto de entender o contexto em que um livro foi escrito, quem era seu autor e quais influências podem ter contribuído para a construção daquela obra. Muitas vezes, conhecer o cenário por trás da história torna a leitura ainda mais rica.
Foi assim que descobri que Eleanor H. Porter nasceu em Littleton, uma pequena cidade da região da Nova Inglaterra, no nordeste dos Estados Unidos. Ao pesquisar fotografias do local, suas construções históricas, as paisagens e o estilo de vida das pequenas cidades, ficou mais fácil imaginar os cenários descritos no livro. A ambientação parece carregar muito desse universo que a autora viveu.
Sugiro a você pesquisar também e entender a influência religiosa, a vida em comunidade, as paisagens locais, o clima etc. Tenho certeza de que isso dará uma nova atmosfera à leitura.

A história: uma menina órfã e uma tia de coração gelado
A história acompanha Pollyanna, uma menina de 11 anos que, após ficar órfã, vai morar com a sua tia, Polly, conhecida por seu comportamento rígido e pouco afetuoso. Sem muitas opções, a tia a recebe em sua casa, e é a partir dessa convivência que a narrativa começa a se desenvolver.
Pollyanna é filha da irmã de Polly e de um missionário que vivia de doações, com recursos limitados. Foi o pai quem a ensinou algo que se tornaria a marca central da personagem: o chamado “jogo do contente”. A ideia parecia simples, mas se mostrava como um grande desafio para cada personagem que Pollyanna encontrava.
A regra é: diante de uma situação desagradável, sempre procurar algum motivo para agradecer ou enxergar algo positivo, mesmo que pequeno.
O jogo do contente é positividade tóxica?
À primeira vista, o conceito pode parecer ingênuo para o leitor atual. Vivemos em uma época em que se discute bastante a chamada positividade tóxica (a pressão para demonstrar felicidade constante mesmo diante de dificuldades reais). No entanto, durante a leitura, tive a impressão de que o jogo do contente proposto por Pollyanna não se encaixa exatamente nessa crítica.
O livro não ignora a existência da dor, das perdas ou dos problemas sérios. Pelo contrário. O que a personagem parece ensinar é uma forma de lidar melhor com as pequenas frustrações do cotidiano, aquelas situações que facilmente roubam nossa energia e nosso bom humor.
Em determinado momento da história, a própria narrativa sugere que existem acontecimentos para os quais o jogo do contente não oferece respostas simples, como a morte.
É uma distinção importante. Pollyanna não nega a realidade, ela propõe uma lente diferente para enxergá-la, especialmente nas situações onde a escolha de perspectiva ainda é possível.
A crítica social que o livro carrega
Talvez por isso Pollyanna tenha um impacto tão grande nas pessoas ao seu redor. Ela não impressiona as pessoas da cidade por possuir riquezas ou status. Sua influência acontece por meio das relações humanas, de colocar sua atenção e sua escuta em pessoas que muitas vezes foram esquecidas pela sociedade.
O livro não economiza nas críticas.
Em determinado momento, Pollyanna observa (sem julgar ou criticar diretamente, pois não é de seu feitio) que as voluntárias da igreja preferem ajudar crianças da Índia a crianças do orfanato local, porque as primeiras aparecem nos relatórios e garantem reconhecimento. Ou seja, não fazem o bem pelo bem, mas para aparentar diante dos outros. É uma observação ousada, especialmente considerando que o livro foi publicado em 1913.
Há também a figura do médico que, ao longo da narrativa, comenta que se pudesse receitaria Pollyanna aos seus pacientes. A frase resume bem a maneira como a personagem afeta as pessoas: sua presença faz com que elas encontrem novas formas de enxergar a própria vida.
Pollyanna foi tão importante na ficção que seus atos também moldaram a realidade. A personagem ganhou uma estátua de bronze na cidade de Littleton, onde nasceu sua criadora, em frente à biblioteca pública.

O ritmo da narrativa e minha ressalva
Apesar de ter gostado bastante da leitura, o livro me deixou uma ressalva. Durante boa parte da narrativa, Eleanor H. Porter constrói os acontecimentos com calma e riqueza de detalhes. Porém, próximo ao final, tive a sensação de que a história acelera repentinamente.
Alguns acontecimentos que mereciam mais desenvolvimento parecem ser resolvidos de forma rápida, o que acabou reduzindo um pouco meu envolvimento com o encerramento da obra. Foi uma escolha narrativa que me deixou frustrada e que contribuiu para eu não sentir vontade imediata de buscar a continuação, apesar de ela existir.
Fiquei pensando o que poderia ter acontecido: Eleonor tinha um prazo para entrega, e estava deixando passar? Ela gostaria de finalizar o livro sem uma conclusão definida que viria em uma próxima obra, mas teve que entregar sem tempo hábil ou no limite de palavras?
Terminei o livro pensando que a autora queria mais, mas não deu.
Ainda assim, indico o livro e entendo por que Pollyanna permanece sendo um clássico da literatura infantojuvenil mais de um século após sua publicação. Sua mensagem sobre empatia, convivência e perspectiva continua encontrando leitores em diferentes gerações.
O que Eleonor H. Porter tem a nos ensinar sobre a escrita
Além da história em si, o livro me fez refletir bastante sobre criação. Ao pesquisar sobre Eleanor H. Porter e sobre a cidade onde cresceu, percebi ainda mais como nossas referências moldam aquilo que produzimos.
Os lugares que visitamos, os livros que lemos, os filmes que assistimos, as conversas que temos e as experiências que acumulamos acabam encontrando um caminho para aparecer em nossas ideias.
A escrita raramente nasce do vazio. Ela é construída a partir das observações que fazemos do mundo. E, ao conhecer um pouco mais sobre a vida da autora, ficou evidente como o ambiente ao seu redor ajudou a dar forma ao universo de Pollyanna, e como ela conhecia profundamente o comportamento das pessoas que retratava.
Talvez essa seja uma boa lembrança para quem escreve: cultivar referências não é ficar o dia todo rolando feed na internet. É conhecer pessoas, viver, viajar, se relacionar. São dos lugares mais óbvios do nosso cotidiano que saem as melhores histórias.

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Foto de Mohan Nannapaneni: https://www.pexels.com/pt-br/foto/arvores-lago-lagoa-outono-5807390/





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